A melodia do centro de São Paulo
10 de junho de 2020
Johnny Magrão, um musicista do centro da cidade, manifesta sua paixão por canções em um dos lugares mais conhecidos da República, a Galeria do Rock.
Em meio ao quarto andar da Galeria do Rock, com som alto ao fundo e um dono apaixonado pela música, está a “Aqualung”. Inaugurada no final dos anos 90, a loja é um espelho do seu proprietário, Dionísio, conhecido por todos como Magrão. Em um bate papo, retomamos memórias marcantes de sua trajetória, principalmente os 33 anos vividos na Galeria.
Aos 65, Dionísio possui uma loja de discos no centro de São Paulo, mas esta, apesar de ser sua maior criação, não foi a responsável por introduzi-lo ao mundo musical. Desde que se apaixonou por canções aos 12, por influência do pai e dos tios, o dono permeia sua vida em torno da música: “Meu pai era músico das antigas, aquela roda de violeiros de antigamente. Então, eu comecei a ter gosto pelo meu pai e os irmãos dele, que formavam duplas caipiras. Desde molequinho eu vivi no meio disso”. Mas, segundo ele, o momento que definiu o rumo de sua vida e o levou a “Aqualung”, aconteceu durante os anos 70: “Eu estava ouvindo à rádio, em um radinho de pilha, o mais moderno da época. Aí tocou: “Oh! Darling” dos Beatles e “Born on the Bayou” do Creedance. Foram essas duas músicas que me mudaram, definitivamente”.
Anos mais tarde, um amigo próximo, dono de uma discoteca, o chamou para trabalhar com ele, como vendedor: “Comecei lá curtindo com ele. Ele falou: “Vamos levar a sério, começa a trabalhar comigo aí, foi assim”. Neste momento, Dionísio voltou a ter que visitar o centro de São Paulo, atrás de atacadistas para comprar os discos que seriam vendidos. Ele já era encantado pelo local, desde que vinha passear com sua família. Encanto que perpetua até os dias atuais, pois, após ser questionado sobre o cenário moderno do centro urbano, Magrão responde: “Está sendo mudado. Vai ser regenerado, entendeu? Renovado. Vai voltar a ser um belo centro, como era há quarenta, cinquenta anos atrás.”
Um longo período se passou, marcado por sua mudança para São Paulo e a consolidação da carreira como vendedor no ramo musical. Trabalhou para diferentes gravadoras, sendo a última, Phillips, em 1989. Os seis meses seguintes foram de correria e tomadas de decisões, até a inauguração da “Aqualung Records” em 1990. Magrão carrega consigo o orgulho de poder dizer que sua loja foi protagonista nas tardes de autógrafos dentre as demais com a presença de grandes nomes da música, como, Glenn Hughes, Caetano Veloso, Ivan Lins e outros astros.
Em 2019 o mundo se choca ao receber a notícia de um novo vírus, portas de empresas e comércios não encontram outra saída a não ser fechá-las. Em meio a uma multidão de prejudicados, Johnny não escapou das estatísticas, encontrava-se no dever de se reinventar, assim como milhares de outros vendedores. Aqualung pode ser considerada sobrevivente após três anos de pandemia, Magrão ressalta a importância de ter insistido mesmo em meio a tantas dificuldades, “lutei pelo meu sonho”. Toma-se como exemplo, a história de Aqualung e Magrão que inspiram a importância de reviver e preservar o centro de São Paulo. Melodias que ecoam pela cidade.
